Lykia: The Lost Island
A Jornada de Nora e o charme de "Zelda" no Commodore 64
Lykia: The Lost Island é uma verdadeira ode aos RPG clássicos de 8 bits.
Com uma jogabilidade aprimorada e um vasto mundo aberto voltado para a aventura e para a exploração, o jogo evoca, com brilho, a nostalgia da era de ouro, reinterpretando-a com frescor e precisão.
Ficha técnica
O Jogo
Há uns tempos atrás, li nos feeds do blogue Indie Retro News qualquer coisa sobre Lykia: The Lost Island e pensei que seria um jogo a experimentar, ou pelo menos devo ter pensado nisso porque guardei o feed para ler mais tarde. Agora, 4 anos depois, peguei finalmente nesta pérola para o Commodore 64.
Desenvolvido inicialmente a pensar no Plus/4, acabou por ter a sua própria versão para o C64. A versão digital que pode ser descarregada nas páginas da PsytroniK Software, da Protovision e da Puls4r Productions é extremamente completa e oferece-nos a versão para o Plus/4 e a versão para o C64, cada uma delas em suporte disco (C64, Plus/4), easyflash (C64), georam (C64), neoram (Plus/4), REU (C64), SD2IEC (C64, Plus/4) e Sidcard (Plus/4), e ainda executáveis Windows, Linux e Mac, que permitem correr o jogo, quer na versão C64, quer na versão Plus/4.
Descrito como do género "Zelda" (é incrível o impacto desta franquia no mundo dos videojogos), com um total de 580 locais diferentes, modo de dia e noite, 40 personagens com os quais podemos interagir, 2000 linhas de diálogo e uma banda sonora composta por 25 temas diferentes, fazem de Lykia: The Lost Island um jogo bastante grande e denso.
Para além da aventura principal, Lykia inclui ainda um mini‑jogo que funciona como prólogo/prequela aos eventos do jogo. Lykia Prologue: Nathan's Journey decorre muito antes da história de The Lost Island e tem como protagonista Nathan, uma das personagens de suporte do jogo principal. O foco está numa das suas primeiras jornadas de exploração pela ilha de Rybolido, funcionando como porta de entrada para o vasto universo de Lykia. Ao longo desta pequena aventura, Nathan visita vários locais da ilha e interage com personagens que lhe fornecem pistas e ajudam a contextualizar a geografia e os costumes locais. O objetivo final é aceder ao interior do Templo de Rybolido e recuperar a Pedra das Pedras, tarefa que exige manipular uma série de interruptores — um tipo de quebra-cabeças que, aliás, antecipa e nos prepara para desafios semelhantes no jogo principal.
O jogo abre com uma sequência cinematográfica que explica a origem mágica da ilha de Lykia e a leitura do manual dá-nos o mote para o início da aventura.
Tudo começa no dia do 16.º aniversário de Nora, um dia como todos os outros, mas com prendas, um dia em que, como sempre, Nora terá de realizar as pequenas tarefas que a mãe tem para ela. Desta feita, Nora terá de procurar o delicioso fruto "Apogy", só que desta vez, assim que apanha o fruto, algo muda completamente na sua vida, o lado mágico e espiritual de Nora revela-se e, de repente, Nora é incumbida de encontrar a ilha perdida de Lykia.
Felizmente Nora não estará sozinha pode contar com o apoio de Gomez, responsável por salvar o seu progresso no jogo, e de Eria, uma misteriosa druida detentora de um vasto conhecimento. Pelo meio, Nora terá ainda de interagir com os habitantes de Sidaria e de Rybola, que a ajudam a progredir em direção ao objetivo final — incluindo Nathan que é agora um velho ermita.
A ação decorre numa perspetiva top-down e tem como foco principal a exploração do mundo, neste caso, as ilhas de Sidaria e Rybola, encontrar ferramentas e artefactos que nos permitem desbloquear novas áreas. Nada consegue ser mais "Zeldaish" do que isto! Mas Lykia não fica por aqui e expande o tipo de narrativa solitária que encontramos em The Legend of Zelda, e adiciona algo mais, sendo fácil encontrar semelhanças com A Link to the Past e até mesmo com Animal Crossing, ao criar um mundo em que os personagens habitam vilas vibrantes, têm laços familiares e/ou afetivos, e com os quais é possível interagir em longos diálogos, onde conseguimos perceber as suas necessidades e o que podemos obter em troca se os ajudarmos, criando uma sensação de sociedade em todos se conhecem.
As referências a outros jogos do género não ficam por aqui, e apesar de estar a uma razoável distância daquilo que é um JRPG, não posso deixar passar em branco o déjà vu a Chrono Trigger sentido logo no início do jogo, com a narrativa a começar no mesmo local (o quarto), quase da mesma forma (o acordar). E não só, a extensa sequência cinematográfica de abertura e a massiva banda sonora transportam-nos para os JRPG das consolas de 16 bits.
Quando se fala de RPG no Commodore 64, a comparação a Times of Lore é quase como que uma obrigação, e aqui, Lykia consegue destacar-se de uma forma surpreendente, enquanto ToL usa a sua dimensão, de quase 13.000 ecrãs, para dar a sensação de viagens longas e de passagem do tempo, Lykia recorre aos modos de dia/noite e a ecrãs onde há quase sempre algo a fazer ou com quem interagir, focando-se na densidade em vez de recorrer a ecrãs estéreis.
A jogabilidade é perfeita, a ação desenrola-se de forma bastante fluida, graças à forma como os controlos respondem, sendo que os únicos delays são os que acontecem quando trocamos de ecrã ou quando é necessário o carregamento de uma das cenas cinematográficas. A velocidade da ação é adequada à tónica de exploração do jogo, e muito raramente é necessário recorrer a reflexos rápidos. Confesso que nem tudo é um mar de rosas e também há coisas de que não gostei. Alguns dos quebra-cabeças que encontramos são muito pouco intuitivos e envolvem ativar interruptores de forma quase aleatória, e o método encontrado para salvar o nosso progresso também é pouco prático, que nos obriga a encontrar o personagem Gomez, que nos pergunta se queremos gravar o jogo.
Graficamente, a equipa da Puls4r conseguiu um feito extraordinário ao adaptar para o C64 a paleta de cores do Plus/4, criando cenários com um detalhe bastante acima da média, mantendo as cores vivas, sem o aspeto "lamacento" típico do C64. Os sprites são multicoloridos e o design dos 40 personagens é bastante expressivo garantindo a sua individualidade tornando-os fáceis de identificar. Aproveitando as potencialidades do C64, foi possível criar efeitos que contribuem para que o jogo se destaque, como a capacidade de Nora se deslocar de forma perfeita atrás de objetos ou o efeito criado pelas sombras das nuvens e pássaros em movimento, sem esquecer o progressivo escurecer/clarear, que simula a passagem do tempo do dia para a noite.
Se na paleta de cores o Plus/4 é superior ao C64, já na música e efeitos sonoros o C64 não deixa créditos por mãos alheias e Markus Jentsch consegue criar uma banda sonora cheia de harmonias ricas que criam um ambiente muito mais cinematográfico e dramático. Outro dos aspetos a ter em conta é o facto de ser imperceptível a interrupção na música sempre que são produzidos efeitos sonoros.
Conclusão
A crítica especializada foi muito positiva, tendo obtido uma classificação geral de 93% na edição n.º 10 da revista Zzap! 64 Micro Action, conseguindo o galardão "Sizzler". A revista Retro Gamer (UK), na edição n.º 238, atribuiu-lhe uma classificação geral de 91%, que lhe valeu o selo "Retro Gamer Sizzler". A revista Zzap! (IT) no n.º 5/90, classifica a versão para C64 com 85% e a versão Plus/4 com 89%, e a revista RetroMagazine World atribui à versão para Plus/4 uma classificação de 90% à jogabilidade e de 95% à longevidade.
Eu não tenho muito mais a acrescentar, Lykia: The Lost Island é, provavelmente, o melhor jogo para o C64 que joguei nos últimos tempos e é, sem qualquer dúvida, um dos melhores RPG para o C64.









